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Evaristo com algumas recordações do seu tempo no FC Barcelona. / FOTO: Lucas Duarte - FCB

Evaristo, durante um momento da entrevista. / FOTO: Lucas Duarte - FCB

O escritor, dramaturgo e cronista esportivo, Nelson Rodrigues, dizia: "A bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, a tragédia, o horror e a compaixão". Nessa linha, o lendário jogador do FC Barcelona, do Flamengo e do Brasil, Evaristo de Macedo, talvez tenha vivenciado ao vivo e a cores o maior drama, o momento mais trágico da história do futebol brasileiro.

O maior artilheiro brasileiro do Barça, que completa 81 anos de idade neste domingo, recebeu a reportagem do site 'www.fcbarcelona.com.br' na sua casa no Rio de Janeiro para falar sobre o fatídico Maracanazo de 1950. Evaristo destacou a oportunidade histórica que o Brasil tem para exorcizar de uma vez por todas esse velho fantasma e também relembrou outros momentos da sua trajetória azul-grená. Confira!

FC Barcelona - Você esteve presente no Maracanã no dia mais trágico da história do futebol brasileiro. Gostaria que você contasse essa história...

Evaristo - Eu tinha quase 17 anos. Estava começando minha trajetória no futebol e jogava no juvenil do Madureira. Toda minha família adorava futebol, meus pais, meus tios. Então, vimos todos os jogos daquela Copa disputados no Rio de Janeiro. Vi a goleada por 6 a 1 que o Brasil aplicou na Espanha e assisti a final também. Claro, foi um resultado inesperado e uma tristeza muito grande. 

O Brasil era melhor, favorito, jogava por um empate e aconteceu a tragédia. Muitos comentam que foi culpa da soberba dos brasileiros. Você confirma essa informação? 

Evaristo -  Não, de forma alguma. O Brasil estava concentrado e jogou melhor naquela partida, mas com dificuldades. O que poucos destacam é que o Uruguai era um bom time. O povo ficou triste porque achava que o goleiro Barbosa poderia ter mais para evitar o gol do Ghiggia. E isso é uma marca que precisa ser apagada. E onde? No Brasil. 

Acredita que esta Seleção Brasileira pode exorcizar de uma vez por todas esse velho fantasma que persegue o futebol pentacampeão? 

Evaristo - Acho que sim e estamos diante de uma oportunidade histórica para isso. Só vencendo aqui, no mesmo cenário, é que essa imagem de derrotado poderá ser esquecida para sempre e poderemos nos livrar desse velho fantasma. Caso contrário, vai continuar presente. É uma lembrança que não se apaga. É curioso, no futebol as derrotas normalmente são esquecidas com o tempo. Já perdemos outra Copa, como a de 1998, fomos eliminados em 1982 com um timaço e quase ninguém fala. Também vencemos cinco Copas e nem isso apaga essa derrota. Temos que ganhar aqui, no Maracanã, para poder eternizar a imagem de vencedor. 

E apesar de ter sido um dos maiores craques do futebol brasileiro, não ter participado de uma Copa é uma decepção na sua carreira. 

Evaristo - Não. Na verdade tive duas grandes oportunidades de ter participado de uma Copa. Na primeira delas, como jogador, em 1958. Eu tinha participado das eliminatórias, do Sul-Americano de 1957 (Nessa ocasião, Evaristo marcou cinco gols numa partida) e era titular da Seleção. O problema foi que eu já jogava no Barça e a Espanha não se classificou para o Mundial da Suécia. Então, o Campeonato Espanhol não parou e acabou bem próximo do início daquela Copa. E o Brasil naquela época fazia uma preparação de dois meses e chamavam mais de 40 jogadores para só depois definirem os 22 jogadores. O Barça não me liberou para vir ao Brasil me preparar, naquela época a FIFA não obrigava os clubes a liberar os jogadores. E por tudo isso acabei ficando de fora. 

E a segunda vez? 

Evaristo - Foi como técnico. Treinava a Seleção em 1985, mas antes das eliminatórias do Mundial do México haviam muitas 'interferências' na CBF. Na mesma época, tinha uma excelente oferta para ir ao Catar e, para evitar problemas, desisti de treinar o Brasil e decidi me aventurar por lá. 

E como você analisa essa eliminação precoce da seleção espanhola na Copa?

Evaristo - Em primeiro lugar, acho que a preparação deles foi mal feita. Não sei o motivo exato, mas o que reparei foi um time sem amor próprio, um time que jogava por jogar, que perdeu a determinação. Também acho que faltou união. E quando é assim, as coisas vão por água abaixo. 

FC Barcelona

Há pouco mais de um mês, completou 57 anos da sua estreia pelo FC Barcelona e impressiona o fato de tanto tempo depois, você seguir sendo reverenciado na Catalunha. Qual a melhor lembrança da tua etapa como jogador azul-grená? Os gols, os títulos....

Evaristo - Nada disso. Minha melhor lembrança foi a convivência com o povo catalão. Eles me aceitaram de uma maneira fantástica, extraordinária. Era sempre muito bem recebido nos lugares onde ia. Claro que também fui um jogador bom para o clube. Por exemplo, de todos os brasileiros que jogaram no Barça e todos jogaram bem, eu sou até hoje o maior artilheiro. E isso é uma marca que não deixa de ser sempre lembrada. 

Você ainda mantém relação com algum daqueles craques lendários da tua época do FC Barcelona? 

Evaristo - Na minha época o vestiário do Barça tinha um ambiente sensacional. Todos éramos amigos. Mas com os que mantenho uma amizade até hoje com o Tejada (atacante), com o 'gallego' Luis Suárez (único espanhol a ganhar a Bola de Ouro). Também era muito amigo do Gracia (defesa), do próprio Ramallets (lendário goleiro do Barça, já falecido), entre outros. Na verdade, não tinha rivalidade, não tinha egos. O Kubala, como era a grande estrela, tinha o grupo dele mas era tranquilo, sem vaidade.  

Como você vê esse período de reformulação que está vivendo o FC Barcelona? 

Evaristo - As pessoas não são eternas e o jogador de futebol tem uma vida curta. Isso é normal. Acho que o time do FC Barcelona chegou em um momento em que deve aproveitar alguns jogadores experientes e trazer outros mais jovens. Não sei se eles têm opções nas categorias de base, mas está claro que é um momento de reformulação. Acredito que dessa maneira seguirá no caminho dos títulos. Essa mistura de experiência com a força da juventude é fundamental e muito bom no futebol. Mas tem que ser uma reforma consciente. Nada de contratar de maneira afobada. 

O Barça é o time que tem mais jogadores na Copa do Mundo da FIFA 2014. Te surpreende isso?

Evaristo - De forma alguma. O Barça sempre conta com jogadores fora de série e com uma base fenomenal. Desde a minha época, o Barcelona revelava inúmeros atletas das categorias de base.

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